A palavra apócrifo significa oculto, escondido, de difícil compreensão. Foi usada pela primeira vez por Jerônimo, na sua Vulgata Latina no século V d.C.

Neste episódio do Por Dentro da Bíblia, Jean Peterson traz um panorama geral sobre a formação do cânon do Velho Testamento, visando ampliar a compreensão acerca do que são os livros apócrifos, os motivos pelos quais não estão presentes nas bíblias judaica e protestante e porque foram posteriormente adicionados à Bíblia Católica.

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Leia o Estudo Bíblico a Seguir

Este estudo bíblico explora a definição, a história e as controvérsias em torno dos livros apócrifos, fornecendo uma análise detalhada fundamentada no processo de canonização da Bíblia.


O que Significa a Palavra “Apócrifo”?

No estudo das Escrituras, o termo apócrifo tem origem em um vocábulo que significa “aquilo que é oculto ou escondido”.

No contexto teológico e bíblico, a designação é aplicada a escritos que possuem confiabilidade duvidosa ou que não foram inspirados diretamente por Deus, embora possam apresentar determinado valor histórico.


O Cânon Bíblico e o Processo de Canonização

Para compreender a questão dos livros apócrifos, é indispensável entender o conceito de cânon. A palavra “cânon” significa literalmente “vara de medir”, correspondendo à regra e ao padrão pelo qual os livros eram avaliados antes de serem reconhecidos na Bíblia.

Critérios de Aceitação para o Antigo Testamento

A aceitação de um livro sagrado no Antigo Testamento exigia a conformidade com critérios rigorosos:

  • Inspiração Divina: O escrito precisava apresentar a autoridade do próprio Deus como seu autor primário.
  • Reconhecimento do Povo de Deus: A comunidade que recebia o documento devia atestar e reconhecer sua autoridade divina.
  • Circulação e Preservação: Os textos eram reproduzidos, compartilhados e guardados em locais sagrados, a exemplo do Templo ou da Arca da Aliança.

Conclusão e Validação do Cânon

O cânon do Antigo Testamento foi concluído por volta de 400 a.C.. Esse processo durou aproximadamente 146 anos, iniciando-se com Moisés e estendendo-se até Esdras, Neemias e Malaquias. Durante o Seu ministério terreno, Jesus Cristo validou formalmente esse cânon, reconhecendo a autoridade das três divisões tradicionais: a Lei, os Profetas e os Salmos.


Livros Citados mas Não Canônicos

As Escrituras evidenciam que nem todo livro religioso produzido entre os judeus era considerado inspirado por Deus. A própria Bíblia chega a mencionar obras que se perderam no decorrer da história ou que não integraram o cânon sagrado:

  • Livro do Justo (ou Jazar);
  • Livro das Guerras do Senhor;
  • Crônicas de Natan e de Gade;
  • Livro da História de Salomão.

A Diferença entre as Bíblias Católica e Protestante

A divergência central entre as edições da Bíblia concentra-se na composição do Antigo Testamento. Enquanto o cânon judaico e a Bíblia Protestante possuem 39 livros, a Bíblia Católica contém sete livros adicionais, além de acréscimos aos livros de Ester e Daniel.

Os Livros Deuterocanônicos

A Igreja Católica classifica esses livros adicionais como deuterocanônicos (adicionados posteriormente). São eles:

  • Tobias;
  • Judite;
  • Sabedoria de Salomão;
  • Eclesiástico;
  • Baruc;
  • 1º e 2º Macabeus;
  • Adições ao livro de Ester e a Carta de Jeremias.

O Concílio de Trento e a Contra-Reforma

A inclusão e aceitação oficial desses escritos no cânon católico ocorreu no ano de 1546, durante o Concílio de Trento, como reação à Reforma Protestante. Essa decisão buscou dar respaldo a doutrinas ausentes nos livros canônicos tradicionais, tais como:

  • A doutrina do purgatório e a oração em favor dos mortos (fundamentadas em 2º Macabeus);
  • A ideia de salvação operada pelas obras (encontrada em Tobias e Eclesiástico).

Por que os Protestantes e Judeus Rejeitam os Apócrifos?

A recusa em reconhecer a inspiração divina dos livros apócrifos apoia-se em razões históricas e teológicas bem fundamentadas:

  1. Ausência de Reivindicação Profética: Em certas passagens, os próprios autores dessas obras declaram expressamente que não escrevem por inspiração divina (ex.: 2º Macabeus 15:38).
  2. Erros Históricos e Geográficos: Constatam-se, no mínimo, 55 erros de natureza histórica presentes nesses textos.
  3. Doutrinas Contraditórias: Os livros contêm preceitos que conflitam com as Escrituras canônicas, incluindo o ensino de práticas de magia (Tobias 6), a aprovação de tratamento desumano a escravos (Eclesiástico 33) e o elogio explícito ao suicídio (2º Macabeus 14).
  4. Rejeição por Especialistas e Historiadores:
    • Flávio Josefo: O célebre historiador judeu validava unicamente os 22 livros do cânon hebraico (correspondentes aos 39 livros do Antigo Testamento atual) e sustentava que os livros apócrifos não eram dignos de fé.
    • Jerônimo: O tradutor da Vulgata Latina frisou expressamente em seus prefácios que esses escritos eram apócrifos e desprovidos de autoridade canônica.
    • Papas e Cardeais: Autoridades eclesiásticas, como o Papa Gregório, o Grande, e o Cardeal Cajetã (opositor de Martinho Lutero), mantiveram fortes reservas e distinções quanto à canonicidade dessas obras antes das definições de Trento.

Terminologias Técnicas: Como Classificar os Escritos Religiosos

Na análise acadêmica e teológica dos textos antigos, utilizam-se quatro categorias técnicas essenciais:

  • Homologomena: Livros reconhecidos universalmente por todos como inspirados.
  • Antilogomena: Livros cuja aceitação gerou debates ou dúvidas pontuais em determinados períodos históricos.
  • Pseudepígrafos: Obras rejeitadas de modo unânime por não possuírem autenticidade ou inspiração.
  • Apócrifos: Textos aceitos e acolhidos por algumas tradições religiosas, mas rejeitados por outras.

Conclusão

Apesar de não possuírem inspiração divina, os livros apócrifos guardam relevante valor histórico para o esclarecimento do chamado período interbíblico — o intervalo de silêncio profético compreendido entre os ministérios de Malaquias e o início do Evangelho de Mateus. No entanto, sob a perspectiva das tradições judaica e protestante, tais livros não possuem legitimidade para fundamentar doutrinas messiânicas ou princípios de fé.
Deus te abençoe!

Sobre o Autor

Jean Peterson
Jean Peterson

Mestre em Bibliologia, Especialista em Exegese e Interpretação Bíblica. Aprendi a estudar a Bíblia com profundidade, direção, clareza e constância. Desejo que você tenha a mesma oportunidade de ter sua vida transformada pela Palavra de Deus.

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